Sua empresa tem memória?

Reproduzimos aqui a matéria “Sua empresa tem memória?” veiculada no Jornal Cidadania, mantido pela Fundação Bunge, sobre centros de memória empresariais.

QUANDO SE FALA em memória de empresas no Brasil, a memória não precisa ir muito longe. Há até bem pouco tempo, a maior parte dos investimentos na área eram projetos isolados, geralmente de empresas familiares, que documentavam sua trajetória como forma de celebrar uma data significativa ou de homenagear os fundadores.

Atualmente, porém, livros comemorativos já não são o único objetivo que os gestores têm em mente ao investir em memória empresarial. O mercado começa a perceber que centros de memória e projetos de gestão do conhecimento acumulado podem ser mais ambiciosos – e mais estratégicos para a empresa.

“O centro de memória tem uma visão privilegiada sobre a empresa e torna-se um vetor de informações”, diz Marilúcia Bottallo, coordenadora do Centro de Memória Bunge. Ela explica que o acervo do Centro serve de referência para diversos departamentos, desde o jurídico, que recentemente resolveu uma disputa de patentes através de consulta aos registros arquivados no Centro, até o de desenvolvimento de novos produtos: “As pessoas querem ver os raciocínios e processos de marketing que já foram utilizados em campanhas de lançamento antigas”. Como colocou a historiadora Silvana Goulart, na palestra “As instituições e seus centros de memória”, apresentada no final de abril, “o conhecimento e a capacidade de difundi-lo na organização como um todo e incorporálo a produtos, serviços e sistemas são a chave da inovação”.

Claudia Fonseca, jornalista e historiadora que coordenou por quatro anos o Programa de Memória Institucional do Museu da Pessoa, atendendo clientes como Votorantim e Petrobras, aponta outras vantagens de investir em centros de memória. “Para o departamento de recursos humanos, o centro é fundamental na hora de treinar e aculturar novos funcionários; eles precisam entender o percurso da empresa para se ambientar a ela”, diz. Já o marketing, por sua vez, costuma ter no legado da empresa um dos principais atributos da marca.

Mas a memória de uma instituição não tem valor apenas para o seu público interno. Em muitos casos, a contribuição da empresa para o desenvolvimento do seu setor foi tão grande que sua história adquire valor para a sociedade como um todo. É quando entra em cena o que alguns profissionais da área começam a chamar de “responsabilidade histórica”, assim como há responsabilidades sociais e ambientais que toda empresa deve observar. “Uma pesquisa sobre a evolução dos hábitos de alimentação do brasileiro, por exemplo, tem muito a ganhar com o acervo da Bunge”, diz Marilúcia Bottallo.

Por se tratar de tendência recente, Claudia Fonseca diz que ainda são poucos os centros de memória que têm boa interação com o público externo (acadêmicos, jornalistas, escritores): “Ainda há muitas empresas que têm receio de abrir informações para o público”. Mas tanto ela quanto Marilúcia afirmam que, embora segredos industriais devam ser preservados, o contato de pesquisadores com as demais informações de uma empresa é positivo, na medida em que enriquece o olhar do gestor sobre o próprio acervo.

Para cumprir todos esses objetivos, no entanto, é preciso qualificação. Hoje, investir em memória de empresas não é mais ter “uma salinha para guardar papéis e arquivos”, como explica Claudia. Ela aponta alguns requisitos básicos para se iniciar um projeto sério de memória e gestão do conhecimento: conscientização de todos os funcionários, para que eles entendam a importância estratégica de colaborar com a administração de seus documentos; a criação de uma política de memória, que vai definir métodos e rotinas de trabalho; e uma equipe multidisciplinar, que envolva não apenas arquivistas, mas também historiadores, técnicos em preservação e restauro de acervo, pessoal de atendimento ao público, entre outros profissionais.

Não é um investimento pequeno. Mas os benefícios, garantem as historiadoras, também não são.

Confira entrevista com Marilúcia Bottallo e Claudia Fonseca: http://www.fundacaobunge.org.br/jornal-cidadania/materia.php?id=4875&/como_investir_em_memoria_exclusivo

Assista à palestra “As instituições e seus centros de memória”, de Silvana Goulart: http://migre.me/MoMZ